Cultura e Economia Solidária

ECONOMIA SOLIDÁRIA E CULTURA

por: Conferência Nacional de Cultura, em Material de apoio no dia 19/11/2009

por Paul Singer

Em discurso recente, o Ministro Juca Ferreira disse: “Ao apostar na cultura como direito de expressão, exercício de cidadania, forma de realização humana e meio de transformação, o Estado Brasileiro também aposta na formação da ética pela estética, na superação da adversidade pela força da diversidade, na transformação do humano em humanidade, na reinvenção da vida por seu lado mais vivo e verdadeiro.”

Há muito tempo um sábio sintetizou o que é cultura dizendo que é tudo o que a vida cria em nome da vida. O que significa que a mulher e o homem ao viver em contato e confronto com a natureza e ao mesmo tempo com outros homens e mulheres, enfrenta dificuldades e desafios que só conseguem superar inventando conceitos e crenças, técnicas e conhecimentos, modos de interação e convivência, modos de produzir o belo e o bem e de punir quem pratica os contrários. Tudo isso é cultura, mas cada agrupamento humano cria seus próprios modos de conviver e confrontar, de conceber e crer, de trabalhar e conhecer, de entender o que é o bem e o mal, o belo e o feio. Por isso, cada agrupamento cria sua própria cultura, que constitui sua identidade, diferenciando-o de outros.

No mundo de hoje, há duas classes sociais básicas cujas experiências de vida produziram culturas muito diversas e, portanto identidades de classe opostas. Uma é a classe empresarial privada, proprietária dos meios de produção material e que vê na competição em todas suas formas a via mestra para o progresso, da superação dos fracos e incompetentes e da prática da justiça distributiva ao proporcionar o ganho de riqueza e poder aos que vencem pelas suas qualidades ao mesmo tempo em que marginalizam os seres comuns, tidos como medíocres e fracos.

Os demais formam as classes trabalhadoras, cuja experiência de vida as inclina a ver na cooperação em todas as formas o modo de convivência que lhes permite superar a pobreza, a fome e a doença e se organizar para a luta pela justiça social, pela igualdade de direitos e de recompensas materiais. Como os trabalhadores são a grande maioria, suas experiências de vida produziram diversas culturas, todas tendo em comum a valorização do coletivo e o repúdio ao privilegiamento dos poucos vencedores das competições.

A cultura empresarial capitalista é a liberal (ou neoliberal), que hoje prevalece no mundo, mas se confronta com as culturas do mundo do trabalho, cujo denominador comum tende a ser a economia solidária. Esta tendência se afirma cada vez mais no Brasil e em outros países da América Latina e começa a se desenvolver também na África, Ásia, Europa, América do Norte e Oceania. Na medida em que a economia solidária constitui uma proposta cultural aberta à confluência com os frutos de outras experiências históricas, de povos tradicionais de diversos continentes, religiões, línguas etc.. e dos mais jovens que já nasceram num mundo globalizado e desde cedo experimentam o choque entre culturas de classe opostas, que as conquistas cibernéticas vão difundindo, ela se torna o substrato comum das culturas do povo trabalhador de muitas latitudes.

Extraído de:

http://blogs.cultura.gov.br/cnc/economia-solidaria-e-cultura/

Daniela Rueda – Cultura e economia solidária

Por Blog Acesso

Alguns dos movimentos culturais mais instigantes atualmente em curso no Brasil, como o Circuito Fora do Eixo ou o próprio movimento dos Pontos de Cultura, têm em comum a proposta de produzir cultura de um modo diferente do convencional. Pautada por princípios como cooperação, solidariedade e autogestão, a economia solidária é uma das características dessas iniciativas e, mais do que um conceito ou uma proposta, é um movimento mundial que tem apresentado novas formas de produção cultural.

No Brasil, a economia solidária integra as políticas públicas do Ministério do Trabalho e do Emprego por meio da Secretaria Nacional de Economia Solidária – Senaes, embora, como tema transversal, conte com ações desenvolvidas por outros ministérios e secretarias. No entanto, o trabalho associado e as formas organizacionais da economia solidária ainda têm dificuldade em acessar financiamentos públicos. Por esse motivo, o Fórum Brasileiro de Economia Solidária – FBES realiza a Campanha pela Lei da Economia Solidária, com o objetivo de criar a primeira lei brasileira que reconheça o direito ao trabalho associado e colaborativo e apoie as iniciativas da economia solidária.

Sobre o tema da produção cultural solidária, entrevistamos Daniela Rueda, integrante da secretaria do FBES e parceira da Viração Educomunicação noConselho Virajovem DF.

Acesso – Em termos gerais, como você definiria o conceito de economia solidária?
Daniela Rueda – 
A economia solidária é um movimento que propõe outra forma de organização social e econômica a partir da produção, do consumo, do crédito e da prestação de serviço, com base nos princípios da autogestão, da cooperação, da divisão justa, do uso sustentável do meio ambiente e do respeito ao ser humano.

Acesso – Que possibilidades esse conceito abre para a produção cultural?
D. R. – 
Esta proposta abre-se a todas as iniciativas culturais que queiram trabalhar sobre os princípios e sobre a proposta política e de sociedade da economia solidária. Isto é, um grupo de teatro que trabalhe de forma coletiva e autogestionária, que realize rodízio de tarefas e repense sua forma de produzir um cenário, ou mesmo o desafio que os Pontos de Cultura estão colocando neste sentido, são formas de economia solidária. A grande questão está no produto cultural, já que sua quantificação é diferente de um produto como o do artesanato. Mas são desafios que necessitamos superar. Existem diversas iniciativas que conseguiram driblar essa questão. Então, é uma questão de valorização do produto cultural e de integração entre as estratégias, que passa pela crítica e pela construção deste mundo que queremos.

Acesso – Que iniciativas seriam essas capazes de produzir cultura a partir do conceito de economia solidária?
D. R. – 
Temos alguns exemplos como o Circuito Fora do Eixo, que é uma rede de produtores culturais. Eles possuem uma moeda própria para circulação. Também temos grupos de música, como o Bate Palmas, do Ceará, que faz parte dos Fundos Solidários e está ligado ao Banco Palmas. Dentro da estrutura do Fórum Brasileiro de Economia Solidária, temos o GT Nacional de Educação e Cultura, que está fazendo esforços no sentido de mapear os grupos culturais e de estabelecer relações de troca com os Pontos de Cultura.

Acesso – Como você avalia as políticas públicas de fomento à economia solidária?
D. R. – 
Em relação às políticas públicas voltadas à economia solidária, no estado de São Paulo temos algumas leis municipais, como em Osasco e Carapicuíba. Temos também uma lei no âmbito estadual, a Lei 14.651 de 2011, que cria o Programa Estadual de Fomento à Economia Popular Solidária – PEFES. O entrave está na regulamentação da lei e na criação do fundo. No geral, temos muitas leis em âmbito municipal e estadual, mas não temos uma lei federal que reconheça o trabalho associado. Por isso, estamos em campanha pela criação da Lei de Economia Solidária.

Acesso – Que outras ações de fomento você destacaria?
D. R. – 
Temos, hoje, muitas ações ligadas ao desenvolvimento de bancos comunitários, pois acreditamos no desenvolvimento endógeno, a partir das comunidades. Isso é feito com o uso de moedas sociais, a fim de concentrar as riquezas no local. Também é importante destacar o trabalho relacionado às cooperativas de reciclagem, tanto no seu fomento como na compra de equipamentos e na construção do trabalho autogestionário.

Bernardo Vianna / blog Acesso

Extraído de:

http://www.blogacesso.com.br/?p=5916

 

Produção cultural na economia solidária

Por Blog Acesso

 

“A economia solidária, mais do que um conceito, é um movimento social, econômico e cultural; é uma iniciativa que, na verdade, é muito ampla”, explicou a educadora e socióloga Luana Vilutis. Difundidas em diversos países, as práticas de economia solidária são pautadas pelos princípios da autogestão, da solidariedade e da cooperação. “A economia solidária reúne, em sua prática, diversos atores, desde empreendimentos econômicos solidários até instituições de fomento e assessoria como ONGs e universidades – a partir das Incubadoras Tecnológicas de Cooperativas Populares – ITCP –, além dos gestores públicos. Hoje, existe uma rede ampla de gestores públicos no Brasil que atua com economia solidária”, contou.

Além do conjunto diverso de atores, também as práticas da economia solidária são bastante variadas. “Quando a gente fala nos princípios da cooperação e da autogestão, eles não se dão somente no universo produtivo, também envolvem práticas de consumo responsável, a própria comercialização, o fomento, o crédito; são iniciativas diversas na área da economia solidária”, disse a pesquisadora.

Vilutis participa da Produtora Cultural Colaborativa. “Resumidamente, a produtora é um encontro, um arranjo produtivo de sete Pontos de Cultura de Pernambuco que se articulou para prestar serviços na área de produção cultural colaborativa”, explicou a socióloga, que chamou a atenção para a utilização de softwares livres cuja filosofia tem muito em comum com os princípios da economia solidária. “A produtora é um exemplo, assim como o Fora do Eixo e a Agência Popular Solano Trindade, outros exemplos muito felizes de economia solidária na área da cultura”, contou.

Na Produtora Cultural Colaborativa é estimulada a troca direta. Entre outros casos, o artista que quer realizar um show ou gravar um CD pode trocar o serviço de produção por uma oficina, uma intervenção, ou outra forma de colaborar. Além disso, a produtora também promove a formação de jovens. “Montamos o palco livre, no qual vai ter um show e vamos gravar esses artistas. Isso acontece com uma equipe de jovens, que selecionamos nas comunidades em que atuamos, e que participam de oficinas de áudio, de vídeo, de jornalismo colaborativo, de foto. Muitas vezes, os jovens fazem a cobertura do evento com um professor que os orienta, eles aprendem na prática, funciona como um grande laboratório”, contou a socióloga.

De acordo com a pesquisadora, a economia solidária aproxima os processos produtivos e a distribuição dos bens e serviços. “Não só por meio da implantação de redes como pela própria prática: muitas vezes quem está produzindo também é consumidor de produtos da economia solidária”, observou Vilutis. Por outro lado, é inevitável também consumir produtos que estão fora dessa rede. “A economia solidária não abarca a totalidade, mas a tendência é essa: que ela consiga alimentar os empreendimentos nos seus insumos e, ao mesmo tempo, gerar produtos que sejam de necessidade de outros empreendimentos, outros grupos”, explicou.

Segundo Vilutis, da mesma forma como a cultura é pensada a partir de uma perspectiva de direito e cidadania, de “sujeitos culturais atuantes”, a economia solidária trabalha com uma dimensão da economia além do consumo. “É difícil tratar uma pessoa apenas como produtora ou consumidora – existe, inclusive, o termo prosumidores –, uma vez que todo mundo que produz está, ao mesmo tempo, consumindo. O mesmo acontece quando pensamos cultura como um direito de cidadania, a gente não pode reduzir alguém a apenas produtor, empreendedor ou espectador. A dimensão é mais ampla e mobiliza muitos setores, muitas áreas artísticas, acho que é algo que pode permitir uma interface entre a cultura e a economia, pensando nessa práticas colaborativas, no trabalho associado, no trabalho autogestionário”, avaliou a especialista.

Políticas públicas para a economia solidária

Secretaria Nacional de Economia Solidária – Senaes do Ministério do Trabalho e do Emprego – MTE é a principal responsável pelas políticas públicas para a economia solidária, embora o tema seja transversal e conte com ações desenvolvidas por outros ministérios e secretarias. Segundo Vilutis, que pesquisa iniciativas de economia solidária na área da cultura para sua tese de doutorado na UFBA, oMinistério da Cultura – MinC ainda é frágil nessa questão. “O Agente Cultura Vivafoi uma formação de jovens em que o MinC tinha expectativa de que esses jovens atuassem na economia solidária, mas, de fato, não foi feita nenhuma ação pública dirigida a isso, não foi implementada nenhuma política”, contou.

Já o Economia Viva, segundo a especialista, foi além da intenção. “O MinCselecionou 12 pontos de cultura que trabalham com economia solidária. O ministério se aproximou um pouco mais de uma ação efetiva, mas ela também foi pontual, teve começo, meio e fim, não perdurou, não se transformou em uma política de fato. Lamentavelmente, porque muitos pontos de cultura trabalham com economia solidária. A ação teve muitos acertos, o problema foi a sua descontinuidade”, avaliou a socióloga.

 

Extraído de:

 

http://www.blogacesso.com.br/?p=5428

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